A mídia também é responsável pela crise atual

Há alguns dias, li uma reportagem que me deixou um tanto apreensivo. Uma das afiliadas do grupo midiático "Lorotas do Amanhã" reclamava de supostas armadilhas criadas para jornalistas com objetivo de que sejam gravados dando depoimentos que possam lhes causar transtornos, desqualificando o profissional e seu veículo. (Não é raro ver algum jornalista falando asneira no ar). 
jornal, midia, imprensa, poliitica, liberdade de expressão, rbs, globo, sbt, record, rede tv, band

Porém o mais perturbador é saber que essa é, justamente, a tática usada pelo próprio meio midiático em questão. Isso me leva à pergunta do título desse artigo. Aliás, cá entre nós, o que você acha da imprensa, especialmente da “grande imprensa”? Apesar dos grandes meios de comunicação não admitirem que não fazem política, é evidente que acontece o contrário, diariamente. 

A mídia, na medida em que conta uma história qualquer, invariavelmente sente a necessidade de dar um determinado tom à notícia e esse tom é a opinião do veículo, às vezes contundente, às vezes subliminar. Com isso a notícia que deveria ser isenta por natureza se torna opinativa e isso é fazer política, aliás é a pior forma de fazer política porque dependendo do ambiente ou do espaço-tempo a mesma opinião pode variar antagonicamente sem nenhuma referencia à opinião anterior, ou seja, varia como se nunca houvesse variado. 

Ao mesmo passo em que a imprensa opina e induz o vivente, não assume a responsabilidade pelos resultados que essa indução possa trazer. Por exemplo: a imprensa aponta que esse é o melhor caminho. As pessoas seguem por esse caminho e caem num buraco. A imprensa não se responsabiliza pela queda e em vez disso faz outra matéria reclamando do buraco - mesmo sabendo que o buraco já estava lá antes mesmo de induzir as pessoas a caírem nele. 

A imprensa não pode agir como uma velha fofoqueira que fica na janela opinando sem responsabilidade alguma - essa é a mais comoda das posições. Sob o manto da liberdade de expressão sempre acusaram governos de esquerda de serem autoritários ao se contraporem ou tentarem regular a responsabilidade da velhota na janela. Agora, surpreendentemente, fazem isso com governos de direita. A velhota quer continuar posando de boa moça e opinando muito sobre diversos assuntos inclusive que o governo americano aprendeu com o governo venezuelano a perseguir a imprensa contrária. Chega a ser ridículo essa pose. 

Há algum tempo atrás a imprensa aqui na região atuava ferrenhamente como opositora ao governo local e diariamente eramos brindados com um tom violento nas notícias e editoriais relativos ao governo. O governo, no caso, não pôde clamar pela liberdade de expressão. O governo atual faz muito pior e a mesma imprensa quando não releva, simplesmente defende na maior cara de pau.

Mas voltando à reportagem inicial que me chamou a atenção, lembro do jornalista dizer que já havia viajado por vários países e ter comprovado que o desenvolvimento de uma sociedade está sempre relacionado à qualidade de sua imprensa. E, segundo ele, isso acontece porque uma boa mídia possui não apenas o papel de informar, mas também o de "formar o cidadão". Finalizou dizendo que os veículos de comunicação têm o dever de estar sempre investigando o governo, para que as falcatruas não prosperem, qualquer que seja o alinhamento político da situação. Eu acrescentaria investigar continuamente a própria imprensa. 

Nota-se que tudo de bom que acontece no mundo é responsabilidade da boa moça chamada imprensa - esse ser elevado e evoluído que cuida de todos nós e nos forma cidadãos. O que há de ruim vem do outro lado - a esquerda. 

Vivemos atualmente uma polarização política sem precedentes justamente porque a imprensa arregaçou as mangas e usou e abusou de sua liberdade de expressão no sentido de nos induzir para o caminho do buraco. A crise que a imprensa insiste em dizer que foi superada, começou antes de mais nada nos noticiários de tempos atrás e foi crescendo dia a dia a tal ponto da crise, de fato, se tornar real. A imprensa fomentou a intolerância política e preconceitos. Curiosamente a inconsequência da velhota acabou fazendo com que os tanto liberais quanto conservadores se voltem contra ela. 

Por fim a natureza humana nos impede de sermos isentos e a imprensa, como um ser político, precisa se assumir como tal e evoluir um bocado na tentativa de evitar calar-se quando convém ou maquiar o noticiário para que o seu lado sempre pareça melhor e o outro pior. Tanto direita quanto esquerda precisam de ética e da ação visando um mundo melhor para todos.

Comentários

++ DA SEMANA

Atos de Vingança - Antonio Banderas

Neoliberalismo e frustração sexual

Greve de juiz e desembargador pelo piso magistral