O homem que pagava para não se incomodar

José era um sujeito legal, de meia idade, calmo por natureza e perseverança. Ele era definido pelos amigos como o "deixa disso", a pessoa que queria sempre estar em paz e detestava confusões. Numa tarde, José estaciona o carro em frente à uma lojinha de materiais de escritório, rapidamente compra um pacote de folhas A4 que sua filha precisava para um trabalho escolar e, ao retornar ao carro encontra um sujeito usando chinelo de dedo e boné na cabeça que, com a mão estendida, solta um sonoro:
pomba, paz, pombo
Paz na Terra aos homens de boa vontade.

Tá bem cuidado chefia. 
José não se sente bem com aquela situação, fica constrangido, mas para não se estressar pega a carteira e entrega uma nota de dois reais ao sujeito. Antes de sair ainda ouve o "cuidador de carros" dar palpite sobre qual é a melhor forma de sair da vaga.

José liga o rádio e procura uma música calma. Cerca de um km adiante ele se envolve em um acidente leve. Um ciclista segue no mesmo sentido e à direita de José até que, num cruzamento, faz uma virada brusca à esquerda sem nenhuma sinalização prévia. Não sendo possível evitar, acontece a batida. O ciclista cai no chão e segura uma das pernas com aparente dor.

José fica indignado com a barbeiragem do sujeito, sai do carro e vai ver como ele está. O homem se levanta mancando e acusa José de não ter visto seus sinais e cobra o prejuízo com a bicicleta.
R$ 100,00 e deixamos por isso mesmo
propõe o "magreleiro" adepto dos pedais.

José não acha aquilo certo mas para não complicar as coisas se dispõe a pagar o valor. Abre a carteira e verifica que tem apenas R$ 82,75. O homem não aceita e ameaça chamar tanto os "azuizinhos" quanto os "azulzinhos".

Após se convencer que não conseguiria mais dinheiro acaba aceitando o valor. Quem não acompanhou o desenrolar dos acontecimentos desde o início ficou com a impressão de que o ciclista tinha feito um favor ao motorista. Uma boa alma.

José entra no carro e segue seu caminho. Segue sua vida tentando apaziguar as coisas. Tentando torná-las mais fáceis, nem que para isso tenha que ceder e ceder novamente, porque afinal, a vida deveria ser simples de se viver. Cerca de dois meses após esse incidente, nosso herói é colocado na primeira página dos jornais da cidade.

O homem teve um surto psicótico ao não receber o troco certo na compra de um sanduíche de queijo, no parque central. Matou o vendedor de cachorro quente e cinco policiais antes de ser alvejado. Faltou 40 centavos no troco.

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